Projetos Sustentáveis

 Projetos Sustentáveis

Pensar a Cidade como uma Casa e a Casa como um Ecossistema

Por Ana Araújo | Arquiteta Urbanista
e Márcia Castro de Magalhães | Engenheira
(que queria ser Arquiteta!)

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e seus Impactos na Sociedade

Quando se fala de sustentabilidade, invariavelmente, vem à mente de todo mundo o meio ambiente, as matas, florestas, a biodiversidade… Também se pensa em reciclagem, aproveitamento de rejeito, qualidade da água e do ar. Tudo isso, sim, faz muito sentido para esse tema. Mas, na realidade a sustentabilidade num contexto mais amplo é bem mais do que isso! Trata-se um conjunto de conceitos trabalhando em conjunto, determinando resultados de longo prazo, de preferência de grande impacto positivo.
Nesse sentido, foi criado em 2015 os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) composto por 17 objetivos e 169 metas a serem atingidos até 2030, como extensão aos 8 Objetivos do Milênio criados em 2000. Antes de conhecer os objetivos poderíamos pensar: como foi que desenvolveram 169 metas de desenvolvimento sustentável? É possível haver 169 metas focadas apenas em: meio ambiente, matas, florestas e biodiversidade? E é aí que percebemos que falar de sustentabilidade é falar da cidade como um ecossistema, das pessoas e de suas relações entre si e com o meio que vivem.

Estruturalmente, os 17 objetivos se fundamentam em 5 macro temas, também conhecidos como: 5P’s do Desenvolvimento Sustentável:

Sustentabilidade nos projetos e negócios

Enxergando, então, a sustentabilidade nesse cenário mais amplo, percebemos que ela está baseada em um tripé bem estruturado e equilibrado entre o impacto positivo que seu projeto ou negócio possa causar na sociedade, no meio ambiente e na economia.
Não é muito dizer que, em se tratando de projetos e negócios, o conceito econômico até aqui vinha sendo privilegiado em relação à sociedade e o meio ambiente de forma muito sistemática. Ser considerado “viável”, para um negócio ou projeto sempre significou de forma geral, sem maiores detalhes, que uma vez concluída sua implantação ou produzido seu produto, esse projeto traria lucro para os investidores envolvidos. A sensação que se tinha era que, em relação a sociedade, essa seria naturalmente beneficiada pelo projeto e que o meio ambiente seria, sim, impactado, mas que ações de mitigação amenizariam os impactos gerados…
O que ocorre, entretanto é que nesse momento estamos testemunhando resultados de impacto (negativo, infelizmente), que jamais poderíamos imaginar! Impactos ambientais e sociais expressivos veem acontecendo de forma cada vez mais frequentes, intensos e inesperados.
Nessa linha de raciocínio, se observarmos com cuidado, desenvolver um projeto realmente sustentável requer atenção a detalhes que, de certa forma, desprezávamos até aqui. Mesmo porque, sempre houve a máxima que algumas soluções ainda são “caras” para ser implantadas. Iluminação e ventilação naturais, geração de energia local limpa, reaproveitamento da água, integração com a natureza para trazer conforto e qualidade de vida.
Mas não vamos ensinar “pai nosso para o vigário”: arquitetos dominam esse assunto! Os clientes, entretanto, é que na maioria das vezes, com o pensamento no “bolso” vão relevando essas soluções para não “encarecer” o projeto e é compreensível.
O que vemos agora é que os eventos têm demonstrado a importância de investimentos de inclusão de qualidade de soluções que, se não gerarem impacto positivo ao meio ambiente e à sociedade, pelo menos não causem danos…
Uma linha conceitual que estamos acompanhando de perto, as Soluções baseadas na Natureza, tem se apresentado como um conceito interessante para solucionarmos “problemas” de forma inovadora. São imbatíveis no que diz respeito a infraestruturas urbanas e muito interessante se aplicadas devidamente na indústria. Tem custo mais alto? Sim… certamente. Mas são mais adequadas e resilientes a longo prazo? Sim! Certamente!
E aí nos deparamos com a linha mestra quando se tratada do conceito de sustentabilidade. Ele é mais do que um conceito. É uma forma de pensar, um ângulo de visão, um ponto de vista totalmente diferenciado no que diz respeito a projeto. É como se fossemos capazes de pensar como a natureza, a tornar nosso projeto parte do ecossistema em que ele se encontra, seja o ecossistema social, seja o ecossistema ambiental.
Em seu livro “Pequeno Manual do Projeto Sustentável”, Françoise-hélène Jourda orienta, através de 69 perguntas, a elaboração de projetos de arquitetura e urbanismo sustentáveis ambientalmente. Essas perguntam vão da escolha do lugar a ser implantado o projeto até o as escolhas das soluções da proposta, passando pelo programa de necessidades, estudo preliminar e anteprojeto, além de trazer conceitos pouco conhecidos, isso demonstra que a arquitetura sustentável não é apenas o projeto que faz reuso da água da chuva, por exemplo.
Arquitetura sustentável é, também, a arquitetura que promove ventilação natural, diminuindo o gasto de energia elétrica com equipamentos de ventilação mecânica, é a arquitetura que pensa na densidade, na acessibilidade e na segurança das pessoas, é o projeto do edifício preocupado com o microclima urbano, é a arquitetura que pensa nas pessoas e é o urbanismo que pensa na “cidade para as pessoas” (parafraseando o famoso livro de Jan Gehl).

Figura 3 – Fonte: Livro “Pequeno Manual do Projeto Sustentável” (Françoise-hélène Jourda)

Para ser realmente sustentável, carregar consigo essa chancela, um projeto precisa mais do que uma adequação a normas e sistemas. É preciso transparecer e funcionar sinérgica e vibracionalmente com o ambiente a sua volta e caminhar para o “zero impacto”, o que seria perfeito!

Ana Araújo é Arquiteta Urbanista pelo Centro Universitário Newton Paiva. Atuou como pesquisadora dos Indicadores do ODS na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com bolsa da SDSN Global, com foco no ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis. É idealizadora e cofundadora do Coletivo Mais um Quarto, coletivo de arquitetos que busca difundir a Arquitetura para Todos através da Lei Federal 11888/2008 (Lei de ATHIS).  linkedin.com/in/anaaraujoarq

Márcia Castro de Magalhães é engenheira civil graduada pela PUC Minas, pós-graduada em Administração de Materiais, Engenharia de Telecomunicações, Gestão de Projetos e Gestão de Negócios. Especialista em Suprimentos e Contratos em Projetos nos segmentos de Energia, Telecomunicações e Mineração. Defensora da causa da sustentabilidade, da economia circular e do desenvolvimento sustentável. Idealizadora da Formato Sustentável e membro do SDSN_Sustainable Development Solution Network – Unidade Minas Gerais. linkedin.com/in/marciacastrodemagalhaes

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