Transtorno Bipolar: Uma Visão Geral para Pacientes, Familiares e Leigos

Transtorno Bipolar: Uma Visão Geral para Pacientes, Familiares e Leigos

Fábio Lopes Rocha
Especialista em Psiquiatra pela Associação Brasileira de Psiquiatria, Mestre em Saúde Pública, Doutor em Ciências da Saúde, Membro Titular da Academia Mineira de Medicina, Fellow of the American Psychiatric Association

Coordenador da Clínica Psiquiátrica do IPSEMG

Definição
O transtorno afetivo bipolar (TAB) é um transtorno de humor definido pela ocorrência de episódios de elevação do humor e aumento da energia e atividade (mania ou hipomania) ou episódios mistos (presença simultânea de sintomas maníacos ou hipomaníacos e sintomas depressivos). Esses episódios geralmente ocorrem em alternância variável com episódios de rebaixamento do humor e redução da energia e atividade (depressão). Tipicamente, entre um episódio e outro, há períodos de duração variável sem sintomas ou com sintomas leves. Isto é, geralmente, a recuperação dos episódios é completa.
Os episódios de mania comumente começam de forma mais ou menos abrupta e têm duração entre uma semana a 4-5 meses. A mania e a hipomania (menos intensa que a mania), caracterizam-se por um período de humor anormalmente elevado, expansivo ou irritado, acompanhado de significativo aumento da energia e atividade. A pessoa sente-se eufórica ou muito irritável e agressiva, cheia de energia, excessivamente otimista e com elevada autoestima. É comum que diga que está vivendo a melhor fase de sua vida. Sente grande necessidade de falar, fora de seu usual, frequentemente interrompendo as outras pessoas. Pode alterar o assunto diversas vezes, sem completar o tema anterior. Curiosamente, dorme menos tempo que o usual e acorda cheia de energia, animada, já planejando diversas atividades. Tudo o que faz é de forma intensa, exagerada, podendo incluir atividades de risco como dirigir em alta velocidade, atividade sexual descuidada, investimentos financeiros tolos ou gastos excessivos. É perceptível para familiares, amigos e colegas que a pessoa está diferente do que sempre foi. Essas alterações podem ser acompanhadas de prejuízos no funcionamento familiar, escolar, ocupacional e social.
Os episódios depressivos tendem a ser mais longos que os episódios de mania, mas raramente ultrapassam um ano. São caracterizados por humor depressivo e perda do interesse e prazer nas atividades. Nos episódios depressivos, a pessoa sente-se muito triste, angustiada e ansiosa, queixa-se de sua incapacidade de alegrar-se ou, às vezes, de emocionar-se. Por vezes, o sentimento é de um enorme vazio interior. Ela perde o interesse em suas atividades, sente-se pessimista, desamparada, desanimada e fadigada. Apresenta alterações da concentração, do sono, apetite e sexualidade. Tem dificuldade para estudar e/ou trabalhar e muitas vezes quer afastar-se do convívio social e familiar. A vida torna-se um fardo muito pesado. Em situações mais graves, a pessoa pode questionar se vale a pena continuar vivendo ou se seria melhor morrer para acabar com todo aquele sofrimento.
Tem sido muito comum que pessoas procurem tratamento com o autodiagnostico de transtorno bipolar ou que “diagnostiquem” um familiar, amigo ou colega como portadores do transtorno. Entretanto, na maioria das vezes, esses diagnósticos são equivocados. É necessário enfatizar que quando a literatura médica se refere a episódio de humor está descrevendo uma alteração patológica do humor. Isto é, não são as manifestações normais, necessárias e adaptativas de tristeza, alegria, ansiedade, irritabilidade, decepção ou luto em resposta aos eventos de vida, proporcionais em intensidade e duração às situações vivenciadas. São variações intensas e duradouras, fruto de adoecimento, que trazem grande sofrimento, prejuízos pessoais, familiares, sociais e econômicos.
Algumas condições específicas são particularmente susceptíveis a equívocos. Por exemplo, pessoas que sofrem de depressão em que o humor oscila com frequência entre estados mais intensamente depressivos e estados depressivos leves ou ausentes. Essas oscilações podem ocorrer nos estados depressivos unipolares. O transtorno bipolar requer, para o diagnóstico, episódios de exaltação patológica do humor (mania, hipomania ou episódios mistos). Outro erro frequente é relacionado a pessoas que apresentam explosões com frequência. Isoladamente, as explosões não caracterizam o transtorno bipolar. É necessária uma avaliação criteriosa para o diagnóstico adequado. Finalmente, outro equívoco refere-se ao comprar compulsivo e a gastos excessivos. Para o diagnóstico de transtorno bipolar é necessário que o comprar compulsivo e gastos excessivos estejam no contexto da exaltação patológica do humor e do aumento excessivo de energia e atividade. Pessoas podem gastar compulsivamente em situações de depressão, infelicidade ou frustração, sem que necessariamente tenham o transtorno bipolar.

Sintomatologia

Os sintomas no transtorno bipolar devem ser graves o suficiente para causar dificuldades significativas na vida familiar, vida social e atividades escolares e profissionais.

Episódio de mania ou hipomania

  • Aumento da atividade, energia e agitação
  • Sensação anormal de bem-estar e autoconfiança, otimismo exagerado
  • Humor exaltado ou eufórico
  • Irritabilidade e agressividade
  • Redução da necessidade do sono
  • Pensamentos acelerados e fala excessiva
  • Distração
  • Decisões inconsequentes: gastos, farras, riscos sexuais e investimentos ruins

Episódio depressivo

  • Humor deprimido, como sentir-se triste, vazio, sem esperança ou choroso (em crianças e adolescentes, o humor deprimido pode aparecer como irritabilidade)
  • Perda acentuada de interesse ou prazer em todas – ou quase todas – as atividades
  • Perda significativa e involuntária de peso ou ganho excessivo de peso. Diminuição ou aumento do apetite (em crianças, incapacidade de ganhar peso conforme o esperado para a idade pode ser sinal de depressão)
  • Insônia ou sono excessivo
  • Inquietação ou comportamento lentificado
  • Fadiga ou perda de energia
  • Sentimentos de inutilidade, pessimismo, medos e culpa excessiva ou inapropriada
  • Diminuição da capacidade de pensar, concentrar e indecisão
  • Pensamentos, planejamento ou tentativa de autoextermínio

Crianças e adolescentes

Os sintomas do transtorno bipolar podem ser difíceis de identificar em crianças e adolescentes, apesar de se utilizar os mesmos critérios que os adultos. Entretanto, os sintomas em crianças e adolescentes frequentemente têm padrões diferentes dos adultos. O humor pode mudar rapidamente durante os episódios. O sinal mais importante são oscilações graves do humor diferentes das variações normais características da criança.

Idade de Início e Evolução

Embora o transtorno bipolar possa ocorrer em qualquer idade, o início é mais comum em jovens adultos, entre 18 e 29 anos. É muito variável em relação à gravidade, à frequência de episódios em geral, ou à predominância de episódios depressivos, maníacos ou hipomaníacos e de episódios mistos. Há pessoas que têm vários episódios por ano. Em outras, os intervalos entre os episódios podem ser de anos. É comum que o transtorno bipolar se inicie com um episódio depressivo, antes da primeira manifestação de exaltação do humor. Também é frequente que os episódios de mania/hipomania ocorram com menos frequência com o passar dos anos. Mais de 90% das pessoas que tiveram um único episódio de mania terão episódios de humor recorrentes.

Subtipos
Para caracterização dos subtipos de transtorno bipolar, é necessário que se faça a diferenciação entre episódios maníacos e episódios hipomaníacos. São dois tipos distintos de episódios, mas que podem apresentar os mesmos sintomas com gravidade diferente. A mania é mais grave que a hipomania e tem consequências mais intensas e profundas na família, escola, trabalho e vida social. Alguns episódios de mania são acompanhados da ruptura com a realidade (psicose). Os principais subtipos são:

  • Transtorno bipolar I. É a forma caracterizada por pelo menos um episódio maníaco que pode ser precedido ou seguido por episódios hipomaníacos ou depressivos. Em alguns casos, a mania pode ser acompanhada de sintomas psicóticos. Pessoas com manifestações mais graves podem exigir tratamento hospitalar. A prevalência na população é de 0,6%.
  • Transtorno bipolar II. Nessa forma, não ocorrem episódios maníacos. O transtorno bipolar II é caracterizado pela ocorrência de pelo menos um episódio hipomaníaco. Geralmente, há episódios depressivos de gravidade variável. Os episódios depressivos podem ocorrer por períodos muito longos, causando grande prejuízo e sofrimento. A prevalência na população é de 0,8%.
  • Transtorno ciclotímico. É caracterizado pela ocorrência de vários episódios hipomaníacos e depressivos menos graves com duração de pelo menos dois anos – ou um ano em crianças e adolescentes. A prevalência ao longo da vida varia de 0,4 a 1%.

Fatores de risco
O transtorno bipolar tem forte componente genético. Parentes de primeiro grau de indivíduo com transtorno bipolar têm risco 10 vezes maior que a população geral para desenvolverem o transtorno. Uso de maconha e outras drogas e privações e abuso na infância também fazem parte dos fatores de risco.

Tratamento
O tratamento do transtorno bipolar deve ser contínuo, ao longo de toda a vida. Possivelmente, a causa mais frequente de recaídas seja a falta de adesão às recomendações médicas. O tratamento consiste no emprego de medicamentos, psicoeducação e abordagem psicológica.
O uso de medicamentos é essencial. Os principais, chamados de estabilizadores do humor, são lítio, ácido valproico, oxcarbazepina, carbamazepina e lamotrigina. Frequentemente são utilizados medicamentos complementares como os antipsicóticos de segunda geração. Outros grupos de fármacos também podem ser necessários.
O engajamento do paciente e, frequentemente, de sua família, é fundamental. Todos devem conhecer bem o transtorno bipolar para que o tratamento seja bem-sucedido. O cuidado com o sono é imprescindível. Álcool e outras drogas devem ser evitados. A psicoterapia é útil no autoconhecimento e no desenvolvimento de melhor capacidade de lidar com as adversidades da vida. Estresse considerável pode ser gatilho para novos episódios de humor.
Embora o transtorno bipolar seja uma condição vitalícia e grave, com a abordagem adequada e a participação ativa da pessoa no tratamento, a evolução pode ser muito favorável, com controle adequado da sintomatologia, evitação de novos episódios e boa qualidade de vida. Isto é, o transtorno bipolar adequadamente tratado é totalmente compatível com uma vida produtiva e gratificante.

 

VivaOnline

Matérias Relacionadas