Cânhamo – Planta considerada ilegal no Brasil tem inúmeras utilidades e benefícios na construção civil

Hempcrete Tav Group Israel

Cânhamo – Planta considerada ilegal no Brasil tem inúmeras utilidades e benefícios na construção civil

Por Camila Martucheli
Fotos: Arquivo pessoal/Internet

Enquanto muitos condenam uma planta por apenas uma de suas características, ter poderes psicoativos, outros a utilizam como uma nova e sustentável matéria-prima na construção civil. Trata-se do cânhamo, uma variedade da cannabis rica em fibras, proteínas, canabinoides e cerca de 400 compostos benéficos à saúde, natureza e economia.
Como matéria-prima na construção civil, o cânhamo foi redescoberto nos anos 1980 na Europa, onde o cultivo é legal. Em especial, a França se tornou a maior nação produtora de cânhamo da União Europeia, planta utilizada em centenas de edifícios europeus como isolamento para preencher paredes e telhados; também é utilizada no contrapiso dos prédios com estrutura de madeira. Na construção civil, o cânhamo é matéria-prima do chamado hempcrete (na língua inglesa, hemp significa cânhamo e crete concreto).

De acordo com Marcelo De Vitta Grecco, co-founder e CMO (Chief Marketing Officer) da The Green Hub, a primeira plataforma brasileira especializada em tecnologia e inovação com foco em negócios voltados à indústria da cannabis, o hempcrete é um produto sustentável, fácil de fabricar, eficiente e econômico. Importante ressaltar que se trata de um material que já era utilizado há muitos anos, com registros que datam do século VI. Ou seja, povos antigos já aplicavam a técnica que foi redescoberta há alguns anos.

Grecco – CMO Green Hub

Utilidades do hepcrete na construção civil

O hempcrete é produzido por meio da mistura de cal e água, com a parte interna do caule do cânhamo. Tecnicamente, segundo Grecco, esse material proporciona isolamento natural impermeável e além disso é à prova de fogo. Destaca-se que as fibras do cânhamo são leves e resistentes, o que oferece uma excelente regulação térmica e ainda controla a umidade das paredes, ou seja, evita mofo. Importante ainda frisar que o material é isento de toxinas.
Diferentemente do concreto tradicional, a aplicação do hempcrete precisa ser feita em uma estrutura de madeira, a qual é preenchida com a mistura, geralmente preparada no local. No entanto, é possível encontrar tijolos e blocos de hemcrete pré-fabricados à venda, porém eles costumam ser mais densos e não têm a característica de serem térmicos e de combater a umidade de maneira eficiente.

O cânhamo na construção civil também pode ser utilizado em pisos e no isolamento de telhados, bem como em projetos iniciais ou mesmo em reformas, com o intuito de melhorar o isolamento térmico de prédios mais antigos, até mesmo os históricos. O hempcrete é um material extremamente duradouro e as construções feitas com ele podem continuar erguidas por séculos a fio.

Hempcrete
Hempcrete Tav Group Israel

Sustentabilidade

Além das qualidades mencionadas, o uso do cânhamo na construção tem outra importante característica, é sustentável ambientalmente. Ou seja, o uso do hempcrete não causa o mesmo impacto ambiental que o concreto tradicional, cuja fabricação libera quantidades significativas de carbono na atmosfera. Muito pelo contrário, o hempcrete não passa por processos tóxicos em sua fabricação e ainda absorve carbono, uma vez que o cânhamo absorve uma quantidade muito maior do gás carbônico durante sua vida, do que emite em seu processo de transformação.
Ainda no hall das características sustentáveis está o rápido crescimento das mudas de cânhamo, que precisam de apenas quatro meses para crescerem e estarem prontas para serem utilizadas. Além disso, possui alta fitorremediação e utiliza pouca água no cultivo.
“O cânhamo já é cultivado como monocultura, mas o ideal é que seja plantada junto a outras plantas por ser altamente sustentável e benéfica para o ecossistema. Isso porque seu cultivo não necessita de muita água, pois possui uma fitorremediação muito grande, ou seja, limpa o solo. Inclusive, se plantarem cânhamo em Chernobyl, em cinco anos a cidade, que foi palco do maior desastre nuclear da história, estaria limpa”, explica Grecco.

O mercado da cannabis e do hempcrete

Segundo o co-founder da The Green Hemp, há quatro grandes mercados potenciais para o uso da cannabis: farmacêutico, saúde e bem estar (vitaminas, suplementos alimentares, cosméticos), industrial (biocombustíveis, bioplásticos, segmento têxtil e construção civil) e uso recreativo. “São várias as aplicações da cannabis na indústria, em especial o cânhamo, que é uma planta mais resistente ao cultivo em regiões abertas e com alta exposição ao sol. Geralmente a maconha é cultivada em laboratório, por ser uma planta mais sensível e que será utilizada para vaporização e fumo”, explica.
Embora o cânhamo seja uma planta ilegal no Brasil, existem várias empresas em todo o mundo que já a utilizam para a fabricação do hempcrete e sua aplicação na construção civil. De acordo com a The Green Huub, são exemplos a empresa australiana HempBLOCK, que tem distribuição exclusiva nos Estados Unidos; a empresa canadense JustBioFiber Structural Solutions, que atende empresas preocupadas com a sustentabilidade ambiental; e a empresa francesa Art du Chanvre, que já construiu mais de 40 casas utilizando o hempcrete.
O mercado de arquitetura também tem se rendido ao cânhamo. São exemplos o escritório de arquitetura israelense Tav Group, cujo prédio foi todo construído com hempcrete, o que auxiliou no frescor do local e economia com ar-condicionado; e o estúdio Martens Van Caimere Architecten, localizado na Bélgica e que também foi construído à base de hempcrete.

Bloco de Cânhamo

A caminho da legalização

Segundo Grecco, a cannabis é uma planta que pode ser considerada uma commodity futuramente. “A planta se quebra em dois tipos de plantas, de modo simplificado. Uma planta é o cânhamo com altos teores de canabinoides, proteínas e fibras, e com baixos teores de THC (0,3%), não causando efeitos psicoativos. A outra planta é a canabis, popularmente conhecida como maconha, que é a mesma planta, mas com altos teores de THC, podendo chegar a até 36% e, por isso, causando efeitos psicoativos”, explica.
No entanto, o cultivo e uso da cannabis – seja o cânhamo ou a maconha – são proibidos no Brasil, em virtude portaria 344 da Anvisa. É nesse sentido, que segundo Grecco, a The Green Hub trabalha pela sua legalização, no intuito de que seu uso possa gerar renda, empregos e desenvolvimento econômico e social de maneira sustentável ambientalmente. “Investimos em pesquisa, projetos e desenvolvimento. Nossa ideia é tirar a cannabis das mãos de quem a trata mal e trazê-la para quem entende e sabe como utilizá-la”, salienta.
Ainda segundo o co-founder da plataforma, o movimento para o uso legal da cannabis no Brasil começou com reivindicação para uso de medicamentos, em especial tratamento de epilepsia em crianças. “Foi nesse cenário, que surgiu a The Green Hub, em 2016”, complementa.
No Brasil, infelizmente, ainda não há empresas que fabricam hempcrete ou que façam construções com o material produzido a base de cânhamo, uma vez que o cultivo da planta ainda é ilegal no país. No entanto, destaca-se que o hempcrete (produto já finalizado) pode ser importado.
Nesse contexto, Grecco acredita que, primeiro, é preciso priorizar a legalização do uso do cânhamo, seja a planta produzida nacionalmente ou importada. “Contudo, há países, como Estados Unidos, Uruguai, Canadá, Colômbia, que já estão a frente na produção do cânhamo e o Brasil poderia ser um país que despontasse como fabricante de produtos finais; tanto na indústria como produtor de hempcrete, como em outros mercados como os de fármacos e saúde e bem estar”, finaliza

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