• Grande BH, 11 de Dezembro de 2017
  • 01:59h
  • Siga:

Página PrincipalA Revista Cadernos ESPORTE E LAZER Revitalização: a nova bandeira do Fernão Dias

Revitalização: a nova bandeira do Fernão Dias

Edição 14 11/05/2017 ESPORTE E LAZER


IMG_9768.JPG


Fernão Dias PaesLeme é um dos bandeirantes mais conhecidos da história do Brasil. Responsável por parte dos povoamentos que surgiram nos territórios que hoje pertencem a Minas Gerais e São Paulo, foi um dos maiores “abridores de caminho” que o país já viu e seu nome até hoje é utilizado para batizar locais públicos, como o trecho da rodovia federal 381 que desce de Contagem e vai até São Paulo, da mesma forma que o desbravador fazia há pouco mais de 300 anos.Mas o prestígio  associado ao nome da figura não é sempre transferido aos homônimos.  O parque Fernão Dias, situado entre os municípios de Betim e Contagem, numa região próxima à rodovia 381, está em situação de total abandono e, ao contrário do bandeirante, já caiu no ostracismo.

IMG_9467.JPG

Da badalação ao abandono

Nas décadas de 80 e 90, uma cena bastante comum se repetia todos os finais de semanano bairro Monte Castelo, em Contagem. Logo nas primeiras horas de sol da manhã, centenas de pessoa começavam a circular pela região em direção à Rua Rio Comprido. O destino? O parque Fernão Dias, em frente ao campus da Puc Minas. Lá dentro,entre quadras, brinquedos, lanchonetes, mirantes e até campos de futebol, sobravam atividades para entreter  públicos de quaisquer idades.

Fundado no dia 04 de maio de1980 pelo então governador de Minas Gerais, Francelino Pereira dos Santos, para ser um reduto de lazer e meio ambiente  entre as cidades Betim e Contagem, ambas extremamente industrializadas, o parque tem quase 1,3 milhão de metros quadrados, onde  foram instalados, ao longo de 30 anos, 23 quadras, uma pista de bicicross, um velódromo de tamanho olímpico,vários playgrounds , algumas duchas e nada menos que dois campos de futebol. Além disso, em suas dependências, há inúmeras trilhas, que permitem contato direto com as riquíssimas fauna e flora do lugar.  Antigamente, conforme nos contou EdnaMelgaço, presidente da Associação Comunitária do Bairro Monte Castelo, o parque estava sempre sendo utilizado: “ a gente ia pra lá tomar banho de ducha, brincar, conversar com os amigos, se divertir. Era outro o parque” . Segundo ela, o parque era, inclusive , utilizado para eventos e festas da comunidade no entorno.

Hoje, entretanto,o Fernão Dias encontra-se em situação de completo abandono, irreconhecível para quem o viu em outras épocas. A começar pela entrada principal, cuja janela está vedada com ripas de madeira. As grades que o circundam, estão enferrujadas e abertas em vários pontos;as árvores mais externas, quase todas cortadas; e as construções, como vestiários e mirantes, pichadas, destruídas e imundas. Como não há ninguém cuidando da segurança no dia a dia,é preciso invadir para entrar, prática que se tornou recorrente entre moradores, mas também entre criminosos e usuários de drogas, que se aproveitam da desolação do lugar.

Lá dentro, o que se vê é uma piora da vista que se tem fora. Áreas imensas outrora tomadas por eucaliptos e outros tipos de árvore, hojeestão completamente descampadas e servem como pastagem ilegal a cavalos e gados de moradores da região. Os campos de futebol, de tamanho oficial e excelentes condições em outros tempos, estão carcomidos pelo tempo e pela ferrugem, e também sem grama. A encosta de um deles, inclusive, pode cair a qualquer momento se seu processo de de erosão continuar. Além disso, os vestiários, que já foram utilizados por equipes semiprofissionais da cidade nas décadas de 80 e 90, estão entregues a usuários de drogas e pichadores. “ Isso aqui era cheio de árvores, não estava aberto desse jeito. Os campos, até outro dia mesmo, estavam sem traves nos gols. Parece que alguém colocou,mas só isso” comenta, espantada, Edna enquanto visitamos as dependências do parque.
O caso é grave pois o parque é o único de tal porte  capaz de atender as cidades de  Betim e Contagem simultaneamente. Segundo o professor Rodrigo Lemos, da UFMG, áreas verdes são elementos cada vez menos presentesnas grandes cidades brasileiras. “Os moradores de cidades de organização industrial, como Contagem e Betim, sentem mais diretamente essa ausência, reafirmando a importância de espaços verdes na cidade; também é importante lembrar a importância de um parque urbano enquanto espaço de lazer e de encontro entres as pessoas. Por isso a afirmação que o impedimento de acesso lesa duas vezes a população, à medida que a priva de dois direitos essenciais à qualidade de vida e à sociabilidade urbana” ressalta o professor.
Tanto Betim quanto Contagem, de fato, possuem poucos parques para atender aos, aproximadamente, 1 milhão e 100 mil habitantes que possuem juntas. Em Contagem, há várias praças, mas apenas sete parques, todos de pequenas dimensões, estando circunscritos a quarteirões grandes dentro de bairros da cidade. Betim, por sua vez, possui uma situação um pouco mais estruturada. São mais de cinco parques e muitas praças, além de um horto e um gigantesco parque de exposições aberto à visitação pública diária. mas a maioria deles, conforme moradores da cidade, encontra-se em más  condições para o  uso. Nenhum deles, contudo, chega próximo das dimensões do Fernão Dias.

IMG_9488.JPG

Imbróglio administrativo, abandono claro

O atual fechamento remonta a 2005, quando acabou o contrato que cedia a administração do parque ao município de Contagem, onde fica localizada sua única entrada.  O parque voltou, então à tutela do Estado de Minas Gerais através da Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese).  Edna relata que foi mais ou menos à partir desse ano que a degradação, que era tênue, começou  a tingir níveis gritantes. E não apenas ela. Moradores da região narram casos extremamente graves envolvendo o lugar,capazes de assustar qualquer um com um pouco de sensibilidade. Conta-se, por exemplo, que em determinado momento no final da década passada, várias árvores foram arrancadas na calada da noite sem que a população percebesse. O resultado foi a transformação de uma área de floresta em pasto. Outras histórias dão conta de casos de estupro, homicídios e mesmo tráfico de drogas em meio ao isolamento do parque sem dono.. Um frequentador antigo do parque, que preferiu não ser identificado, informa que lá havia até comércio sem irregular. Somente em 2014, a prefeitura de Contagem promoveuo fechamento dos estabelecimentos sem licença. Antes disso, os proprietários agiam como queriam. “O dono de um bar vendia bebidas alcoólicas, organizava forrós e festas, sujava o lugar todo e ninguém cobrava nada. Tudo isso sem licitação.”Conta o morador.

Até houve tentativas, ainda que isoladas de ocupar o parque.A prefeitura de Contagem manteve no lugaraté 2015 o Instituto  Educacional da Criança e do Adolescente(INECAC), escola voltada para crianças e jovens com algum tipo de vulnerabilidade. Hoje, o espaço do virou um depósito de cadeiras. Também aconteceram diversos projetos de caminhada e esportes ao ar livre, fossem de autoria da prefeitura ou da comunidade no entorno, mas sempre esbarravam na infraestrutura precária doFernão Dias.

Outras iniciativas de ocupação vieram de entidades autônomas de praticantes de esporte. A primeira delas, foi aFederação Mineira de Ciclismo, que tentou  promover a  utilização do velódromo, o único de Minas em padrão olímpico. Contudo, tal empreitada também não foi pra frente. Em 2015, um grupo de falcoeiros torna-se o último ator dessa história, quando uma parceria firmada entre a Gavilan Serviços Ambientais, uma empresa de gestão ambiental e a prefeitura de Contagem permitiu a única ocupação do parque que ainda perdura.

João PauloDiogo Santos, fundador da empresa , explica que o contrato previa a criação de uma parceria entre a Gavilan, que faz o controle de pombos do parque, e a prefeitura, que cede o espaço para a reabilitação de aves de rapina resgatadas do tráfico e de situações de maus tratos. Lá as aves são treinadas, reabilitadas e, posteriormente, reintroduzidas na natureza. Contudo, a história narrada por eles não é muito diferente das outras que giram em torno do parque: relatos de descaso. João Paulo conta que, quando chegaram lá em 2015 encontraram oparque“em péssimas condições, retiramos mais de 500 sacos de lixo, o local estava servindo de abrigo para bandidos. A falta de segurança ainda atrapalha muito o nosso trabalho, a nossa sede foi arrombada três vezes desde que mudamos para o local, não temos apoio de ninguém. Somos obrigados a nos revezar para dormir no local para impedir futuros arrombamentos.”

Um novo início para uma história que quase acabou

A primeira mudança desse cenário de desolação começa a ser esboçada em 2015, quando a deputada estadual Marília Campos propõe o projeto de lei 2999/15 que transforma o Parque Fernão Dias numa área de proteção ambiental. Segundo ela “é necessário humanizar as cidades. E equipamentos como temos neste parque, não é cidade que tem.” Desta forma, o projeto seguiu para o governo e foi sancionado em dezembro do ano passado, transformando o parque em uma APA de fato. 
Daqui pra frente, quem quiser provocar qualquer alteração no lugar, seja a inciativa privada, os moradores ou o próprio governo, terá de seguir estritos  protocolos legais e receber autorização do conselho diretor, formado por integrantes das  prefeituras de Contagem e Betim, do estado, das comunidades no entorno e de entidades civis organizadas. Dessa forma, diferente do que acontecia antes, agora há mais definição sobre quem se responsabiliza pelo parque, o Instituto Estadual de Florestas, IEF. 

Outra preocupação manifestada pela parlamentar é a inclusão da população de Betim no espectro de frequentadores do parque. Ao longo dos anos, houve uma hegemonia de contagenses em seu público, o que se deve ao fato de sua única entrada estar localizada no bairro Bela Vista, em Contagem, ainda que quase todo o seu território esteja na cidade vizinha. “ Em audiências públicas, ficou manifesto o desejo dos betinenses pelo parque, era uma reclamação recorrente. Eles devem e serão envolvidos no planejamento da gestão” afirmou Marília. 

Marilia.JPG

Apesar do novo enquadramento legal, o Fernão Dias ainda está muito distante das condições ideais de uso. Marília Campos lembra que  “ a proteção do parque está garantida, mas o retorno dele à população ainda não.” Isso por que a criação da Área de Proteção Ambiental é apenas o primeiro passo de um percurso longo entre a atual situação de risco ambiental e a utilização harmônica do espaço por parte da sociedade. Para se ter uma ideia, o  plano de manejo, que fará um diagnóstico ecológico e determinará as melhores formas de utilização da área, nem começou a ser feito. O conselho diretor, por sua vez, também não foi formado.   Até que tudo isso aconteça, ele segue sob a responsabilidade do Instituto Estadual de Florestas(IEF). Paulo Shceid, gerente de criação eimplantação de  áreas protegidas do Instituto garante que “ o Estado deverá dispor de equipe de funcionários para exercerem a gestão da área, podendo ser realizadas parcerias com a Polícia Militar Ambiental e Subsecretaria de Fiscalização da SEMAD para desempenhar atividades de fiscalização e monitoramento.”

Quando estivemos no parque no início de março, ele parecia em estado terminal.  As paisagens que vimos lá dentro não ficariam estranhas como cenários de filme de guerra. Os restos dos eucaliptos de outrora ainda jazem lá, completamente  queimados. As trilhas, quando não estão ocultas em meio ao mato, encontram-se apagadas pelos cascos dos cavalos que  agora as usam como pasto. Não há, lá, nenhum responsável identificável, seja membro da prefeitura de alguma das duas cidades, seja do estado.  Descobrimos o acordo entre a prefeitura e a Gavilan por que havia um estandarte de falcoeiros pregado numa árvore próximo à entrada. E, nesse desencontro  de informações e irresponsabilidades, o parque segue, sozinho, descuidado e sem referências claras sobre seu futuro, além da nova categoria em que foi enquadrado, Área de Proteção Ambiental. Isso pode salvá-lo, mas enquantonão propostas concretas sobre como tornar seu uso viável e, mais importante ainda, quem vai administrá-lo,  o Fernão Dias continuará do jeito que está, abandonado.
 

Área de Proteção Ambiental

No Brasil, as Unidades de Conservação sã divididas em pelo menos 12 categorias que diferem quanto à quantidadee ao  tipo de intervenção humana tolerada em suas dependências. O Parque Fernão Dias enquadra-se no tipo Área de Proteção Ambiental que é utilizado para definir áreas extensas que permitem certo grau de ocupação humana, desde que de forma sustentável. O objetivo básico de uma APA é preservar a diversidade biológica ao mesmo tempo em que promove a utilização de uma área verde pelo público leigo. Uma vez enquadrado nesse tipo de UC, a área passa a  ser administrada obrigatoriamente por um conselho diretor formado por membros do estado e da sociedade civil organizada.

 





Voltar para Cadernos

  • Compartilhar:

Última Edição

Edição 14

Maio de 2017

Confira

Colunistas

SARAH PARDINI

Feminilidade

OHARA RAAD

Beleza e Estética

ALAIZE REIS

Engenharia Civil

RONAN GOMES

Língua Portuguesa

LINDOMAR GOMES

Direitos e Cidadania

Viva Grande BH

Rua Getúlio Vargas, 33 Bairro JK - Contagem, MG CEP 32.310-150

Contato

  • Redação: 31 2567.3756
  • Comercial: 31 2564.3755 | 3356.3865

Siga:

Assine nossa Newsletter:

(c) 2009-2010 Todos os direitos reservados. Confira nossas políticas de privacidade.

,