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Criança e consumo

Edição 04 31/03/2012 ARTIGOS

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“O bombardeio publicitário dirigido ao público infantil, associado à desinformação da população, são os verdadeiros donos do cardápio das crianças”.

Durante o Fórum Social Mundial Temático, ocorrido em Porto Alegre (RS), de 24 a 29 de janeiro de 2012, aconteceu uma oficina coordenada pelo Núcleo Interdisciplinar de Prevenção de Doenças Crônicas na Infância, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pelo Grupo Criança e Consumo. Como resultado prático da atividade, os participantes elaboraram e publicaram uma carta, fazendo um alerta à população e às autoridades quanto aos riscos à saúde decorrente de uma alimentação inadequada, baseada em produtos industrializados, que contêm altas taxas de gorduras, sal, açúcar e baixo valor nutricional.

O ser humano tem direito de fazer suas escolhas. Mas é recomendável que as crianças não sejam tratadas como meros consumidores de produtos. Aprender que existe uma alimentação saudável, adequada e segura, que leva a vida, e outra que não é saudável e leva a morte são, no mínimo, as duas opções que precisam ser dadas para uma escolha consciente a partir de uma educação alimentar e nutricional sustentável de maneira continuada.

Ater-nos-emos, aqui, em destacar os pontos cruciais da referida carta. O primeiro aborda as conseqüências que traz um diagnóstico da insegurança alimentar e nutricional. O segundo faz um chamado à ação. Os dois pontos são urgentes, para uma atitude de nós cidadãos, das autoridades constituídas e as eleitas, e os meios de comunicação. Todos nós somos impelidos a cumprir nossa parcela de responsabilidade na construção de uma rota alternativa rumo a uma alimentação e vida saudável, principalmente para as crianças.

As conseqüências:


1. Segundo o IBGE, o excesso de peso, em 2008-2009, já atingia cerca de metade dos homens e das mulheres adultas. Dados comparativos das décadas de 70 a 90 mostram que, neste período, o excesso de peso de meninos (5 a 9 anos) aumentou 3 vezes e de adolescentes (10 a 19 anos), 6 vezes. Isso comprova que a obesidade é uma doença evolutiva, que se inicia na infância e se perpetua ao longo da vida.

2. As doenças crônicas associadas à obesidade (hipertensão arterial, diabetes e câncer), antes consideradas doenças de adulto, têm sido diagnosticadas cada vez mais precocemente.

3. Essas doenças estão relacionadas às quantidades excessivas de sal (sódio), açúcar e gorduras presentes em refrigerantes, bolachas recheadas, salgadinhos e massas instantâneas, consumidas pelas crianças.
 

Conclamamos população e autoridades a:

- Estabelecer ações conjuntas e continuadas, principalmente das Secretarias de Educação e de Saúde voltadas à educação nutricional e alimentar desde o período pré-natal, com ênfase em creches e pré-escolas;

- Enfatizar os benefícios do aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses de vida, da sua continuidade após a introdução da alimentação complementar saudável, assim como dos prejuízos associados ao aleitamento artificial;
 
- Destacar a importância de evitar o acréscimo de açúcar e sal nos alimentos antes dos 2 anos de vida - período vital em que se define o paladar, que acompanhará o ser humano pelo resto de sua vida;

- Difundir amplamente para a população, bem como fiscalizar de forma efetiva, onde a alimentação escolar é executada e servida (escolas), o cumprimento das diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) - Lei nº 11.947, de 16/06/2009 - que determina a aquisição mínima de 30% de produtos oriundos da agricultura familiar, proíbe a compra de refrigerantes e restringe a aquisição de enlatados, embutidos, doces, alimentos em pó ou desidratados para reconstituição, com quantidade elevada de sódio e de gorduras;

- Agregar as universidades públicas na capacitação dos profissionais das áreas de saúde e educação, focada em uma alimentação escolar adequada aos costumes regionais, às condições nutricionais individuais das crianças e às faixas etárias, dos berçários até o final da vida escolar;

- Promover, pelo poder público, campanhas de esclarecimento quanto à importância de hábitos alimentares saudáveis na prevenção de doenças crônicas;

- Mobilizar os Conselhos Municipais de Educação, de Saúde e de Alimentação Escolar para o engajamento em defesa da alimentação saudável;

- Criar uma mobilização nacional pela regulamentação da publicidade dirigida ao público infantil.

Louvamos e registramos a iniciativa dos promotores e participantes da citada oficina que trouxe, dentre outras, a contribuição da professora da UFRGS, Noemia Perli Goldraich que afirma: “Se o que queremos para nossas crianças não é um futuro de obesos desnutridos, precisamos tomar as rédeas da situação e já. A informação continua sendo a chave-mestra e, pais, educadores e profissionais da saúde precisam saber identificar o que está escrito nos rótulos. Se tomamos tantas medidas para a identificação de pessoas que entram nas nossas casas e nas escolas, porque não adotamos estes mesmos cuidados antes de permitir a entrada de substâncias no nosso organismo e das nossas crianças? Nunca é demais lembrar que bons hábitos alimentares começam a ser transmitidos na vida intrauterina, que criança até dois anos não deve ser exposta ao sal e que não se deve colocar açúcar em chás e mamadeiras de bebês. Muito menos achocolatados, que contém açúcar e gordura em excesso.”

Reconhecemos que muitas das discussões e eventos que fizeram parte do Fórum Social Mundial (FSM) - que teve como tema central “Crise capitalista, justiça social e ambiental” - contribuíram com a reflexão e com as transformações sociais por elas provocadas. O conjunto das discussões e proposições do Fórum, ajudarão no processo preparatório da Cúpula dos Povos da Rio + 20 que acontecerá no Rio de janeiro, nos dias 20 e 21 de junho 2012.

Mais informações:
http://www.fstematico2012.org.br/index.php?link=48
criancaeconsumo1@gmail.com


Gildázio Santos
Filósofo, Técnico em projetos sociais, assessor técnico do Consea-MG
Santos.gildazio@ig.com.br
www.areteeducar.org.br

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